O Caminho é o Vazio



Os Textos abaixo Para além da Linguagem e O CAMINHO É O VAZIO são de autoria de Janine Milward de Azevedo. Você pode copiar ou reproduzir desde que sempre na íntegra e mencionando sua autoria e créditos. Namaskar.

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Pergunta de Regina: Dá para se falar sobre o Vazio?.
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Sitio das Estrelas, 7 de maio de 2004
Namaskar, eu saúdo você, Regina, com minha mente e com meu coração!



Para além da Linguagem...

Janine Milward de Azevedo

Lao Tsé, em seus Capítulos do Tao Te Ching, o Livro do Caminho e da Virtude, nos fala sobre o Vazio...Transcrevo abaixo, então, a primeira estrofe do chamado Capítulo 1 desta obra:

O Caminho que pode ser expresso não é o Caminho constante
O nome que pode ser enunciado não é o Nome constante
Sem-Nome é o princípio do céu e da terra
Com-Nome é a mãe das dez mil coisas

Primeiramente, Lao Tsé nos diz que não existe linguagem possível que possa alcançar a verdadeira essência do Tao, ou seja, o verdadeiro Tao está além de qualquer linguagem, bem como além de qualquer possibilidade de manifestação tanto do consciente quanto do inconsciente. Nada pode denominar correta e certeiramente o que é o Tao.

Sendo o Tao a única possível constância do Todo e do Tudo, a única possível realidade que é imutável, Lao Tsé a Ele se refere como impossível de se referenciar. Quando algo semelhante ao Tao é referenciado, já não é o Tao verdadeiro, é apenas algo que se pode referenciar como Tao, como O Caminho.

O Caminho que pode ser expresso não é o Caminho constante
O nome que pode ser enunciado não é o Nome constante


Não podendo ser referenciado de nenhuma forma, do Tao parte o princípio criador e formador de todas as coisas. Esse princípio, primordialmente, ainda é a não-vida, a não-existência, a não-forma, a não-realidade - que dá berço à vida, à existência, à forma, à realidade. Esse é o Wu Chi, o Mundo da Não-Manifestação, Nirguna Brahma, onde o Tudo e o Todo - o céu e a terra - são gestados ainda dentro do Ventre do Tao.
Sem-Nome é o princípio do céu e da terra

Sem-Nome, então, é o Wu Chi, O Mundo da Não-Manifestação, Nirguna Brahma, que dá criação ao Tudo e ao Todo, o Mundo da Manifestação, Tai Chi, Saguna Brahma.

O Mundo da Manifestação, Tai Chi, Saguna Brahma, inclui o Tudo e o Todo advindos do Mundo da Não-Manifestação..

No entanto, o Tudo faz ainda parte da idéia de totalidade advinda do Tao do Mundo da Não-Manifestação. O Todo faz parte da idéia da totalidade advinda do Tao do Mundo da Manifestação. O Tudo ainda é indefinível enquanto o Todo já pode ser definido e identificado. Assim, O Todo adquire um nome.

Com-Nome é a mãe das dez mil coisas

Dessa maneira, na primeira estrofe do Capítulo 1 Lao Tsé nos apresenta o Tao e a total impossibilidade de se falar sobre Ele em sua essência. Quando alguma linguagem passa a se referir sobre o Tao, então, já não é mais o Tao essencial e sim, o Tao através de alguma forma ou linguagem. Também nessa primeira estrofe, Lao Tsé nos introduz á estrutura da formação do Tudo e do Todo do qual somos parte: o Wu Chi, O Mundo da Não-Manifestação, Nirguna Brahma, e o Tai Chi, O Mundo da Manifestação, Saguna Brahma - conceitos fundamentais e estruturais de compreensão da verdadeira natureza do céu e da terra.


O Caminho é o Vazio 

Janine Milward de Azevedo

Lao Tsé, em seu Capítulo 4 do Tao Te Ching, o Livro do Caminho e da Virtude, tenta nos falar sobre o Vazio:


O Caminho é o Vazio
E seu uso jamais o esgota
É imensuravelmente profundo e amplo,
como a raiz dos dez mil seres
Cegando o corte
Desatando o nó
Harmonizando-se à luz
Igualando-se à poeira
Límpido como a existência eterna
não sei de quem sou filho
Venho de antes do Rei Celeste

O Caminho é o Vazio

O Caminho é o Tao. Sobre o Tao não se fala, não se tem palavras para se referir ao Tao porque o Tao está além de todas as palavras, além do além. Tudo aquilo ao qual pode ser referido faz parte do Mundo da Manifestação, o Tai Chi. O Mundo da Manifestação é criado e é um espelho que espelha e re-cria tudo aquilo que repousa no inefável, no sutil, que ainda poderemos nos referir como o Mundo da Não-Manifestação, o Wu Chi. No entanto, até o Mundo da Não-Manifestação - que é da classe do Absoluto - é criado a partir do Tao. Sendo assim, o Tao ainda está além, para muito mais além do Mundo da Não-Manifestação.

O Tao pode ser alcançado através do ato do Caminhante Caminhar seu Caminho rumo ao seu Tao. Esse Caminho pode ser chamado de Vazio, de entrar no Vazio. É somente através do Vazio Absoluto que o Caminhante consegue Caminhar seu Caminho e alcançar seu Tao. Esse Vazio é anterior ao Tudo - que é o Mundo da Não-Manifestação simbolizado pela gravidez sutil de tudo aquilo que faz nascer e criar o Mundo da Não-Manifestação, que é o Todo. Assim, o Vazio é anterior ao Tudo e ao Todo, ao Mundo da Não-Manifestação e ao Mundo da Manifestação. Por isso, Lao Tsé, no Capítulo 4 - que é um dos Capítulos que mais intimamente nos falam do Tao -, nos diz que O Caminho (O Tao) é o Vazio.

Sabedor de que não é possível se nomear o Tao - mesmo quando o simboliza como o Vazio -, Lao Tsé continua:
e seu uso jamais o esgota

Esse Vazio significa a Absoluta Ausência do Tudo, do Tudo e mais ainda, do próprio Vazio. No entanto, o Vazio não é o Nada pois que no Nada encontram-se o Tudo e o Todo e também encontra-se o Vazio, ou a nomeação mais próxima do Tao - que ainda se encontra para além, muito além, de qualquer nomeação.
O uso desse Vazio jamais o esgota porque o Tao é inesgotável ou mesmo além da possibilidade de ser esgotável ou inesgotável - desde que é o Tao anterior à própria Criação do Nada, do Tudo e do Todo, anterior até ao próprio Vazio, que é o que mais próximo se lhe assemelha.

E Lao Tsé, ainda querendo dizer mais sobre o Vazio, continua:


É imensuravelmente profundo e amplo,
como a raiz dos dez mil seres

Os "dez mil seres" simbolizam a Criação e a raiz dessa Criação é oriunda do Vazio - que "é imensuravelmente profundo e amplo". Novamente, nesses versos, nos é dito que o Vazio é imensurável, ratificando o fato de seu uso jamais o esgotar.

Assim, quando o Caminhante se coloca em seu Caminho rumo ao seu Tao - e o encontra - torna-se o Homem Sagrado, aquele que se fusiona com a raiz da Criação e a imensurabilidade e o inesgotamento do Vazio que é a nomeação mais próxima do Tao, do Caminho

Na segunda estrofe, Lao Tsé nos fala sobre o Te, A Virtude. A Virtude é a maneira pela qual o Caminhante deve Caminhar seu Caminho rumo ao seu Tao, O Caminho. A Virtude é também o Caminho em sua forma do Mundo da Manifestação. Assim, dentro da Tríplice Transparência ou Sagrada Tríade - O Tao em si, Os Tesouros do Espírito (O Conhecimento) e O Mestre (o Homem-Sagrado que realiza em si O Conhecimento e O Tao) -, A Virtude representa a raiz do Mundo da Manifestação e o Vazio representa a raiz do Mundo da Não-Manifestação e ambos apontam para a ponte que leva ao Tao, O Caminho.


Cegando o corte
Desatando o nó
Harmonizando-se à luz
Igualando-se à poeira

Dessa forma, Lao Tsé nos diz para acalmarmos nossa mente e buscarmos a expansão da consciência a fim de a tornamos iluminada e infinita - esse é o Caminho da Iluminação, exemplificado através dos versos:


Cegando o corte
Desatando o nó

Alcançando o Homem Sagrado ou Caminhante o Tao da Iluminação, o patamar da consciência iluminada e infinita, é preciso então que se dedique (em sua Alquimia do Caldeirão de seu corpo físico e de seu corpo espiritual ou corpo de luz) a se harmonizar com sua Luz.... e para tanto, entrando no Vazio. Por isso, Lao Tsé nos diz:


Harmonizando-se à luz
Igualando-se à poeira

Na terceira estrofe, Lao Tsé nos revela como nos harmonizarmos com a Luz do Tao e entrarmos no Vazio: a consciência de que somos nós mesmos o Tao e assim sendo, é preciso que ao Tao retornemos, nos fusionemos. Esta é a Alquimia do Caldeirão, ou seja, o Caminhante torna-se Homem Sagrado a partir do Tao da Iluminação e trabalha seu corpo físico já com a plenitude e infinitude de sua consciência iluminada e transforma, transmuta, esse corpo físico em Corpo de Luz, alcançando então, o Tao da Imortalidade ou Liberação - vida e consciência iluminadas e infinitas.


Límpido como a existência eterna
não sei de quem sou filho
Venho de antes do Rei Celeste

Ao tornar-se Homem Sagrado, Lao Tsé pôde nos contar sobre o Mistério dos Mistérios, ou seja, que o Tao é anterior à própria Criação. O Tao é impessoal e Absoluto. Dessa forma, o Homem Sagrado, ao se fusionar ao Tao, descobre sua impessoalidade e infinitude:


Límpido como a existência eterna
não sei de quem sou filho

Fundamentalmente, mais que se descobrir anterior à própria Criação, o Homem Sagrado descobre que ele mesmo, fusionado ao Tao, ao Caminho, é anterior ao próprio suposto Criador, que Lao Tsé neste Capítulo, nomeia de Rei Celeste.


não sei de quem sou filho
Venho de antes do Rei Celeste

"Rei" é a Consciência iluminada e celestial, a Suprema Consciência, Deus-Onipotente, O Criador que com sua Consciência cria a Criação, espelho de sua Consciência Suprema. Sendo assim, o Homem Sagrado é aquele que alcança, se fusiona com a Consciência Suprema, com o Rei Celeste, e finalmente diante do Vazio do Tao, compreende o Tao além de qualquer compreensão, além de qualquer palavra, além do além. Porque sobre o Tao não se fala, apenas nos deixamos preencher pelo Tao.

Dessa maneira, o Homem Sagrado, dentro da infinitude e impessoalidade do Tao, compreende que "Não sei de quem sou filho, Venho de antes do Rei Celeste". Essa é a Iluminação. Esse é o Caminho. E "O Caminho é o Vazio".
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O Tao Te Ching, o Tratado do Caminho e da Virtude, é uma obra extremamente concisa e que, no entanto, "é imensuravelmente profunda e ampla, como a raiz dos dez mil seres". A meu ver, o Capítulo 4 é um dos que mais expressa O Tao e O Te em sua concisão e em sua amplitude. E seus primeiro e último versos expressam a estrutura fundamental da apreensão do Tao diante de todas as outras apreensões espirituais e religiosas que conheço:
O Caminho é o Vazio
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Venho de antes do Rei Celeste

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O Texto acima
O CAMINHO É O VAZIO
é de autoria de Janine Milward de Azevedo. Você pode copiar ou reproduzir desde que sempre na íntegra e mencionando sua autoria e créditos. Namaskar.

BABA NAM KEVALAM
A Consciência suprema a tudo permeia

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Janine Milward de Azevedo