O Vazio é a Imortalidade?


O Texto abaixo é de autoria de Janine Milward de Azevedo. Você pode copiar ou reproduzir desde que sempre na íntegra e mencionando sua autoria e créditos. Namaskar.

 O Vazio é a Imortalidade?

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Pergunta de Regina: Janine, poderíamos, então, dizer que o Vazio é a Imortalidade?
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Sitio das Estrelas, 17 de junho de 2004
Namaskar, eu saúdo você, Regina, com minha mente e com meu coração!


 O Vazio é a Imortalidade?

Janine Milward de Azevedo

A Luz e o Vazio seriam as definições mínimas da dualidade cabível na primordialidade da Criação, ou Mundo da Manifestação, ou Céu Posterior, ou Tai Chi (que nos revela o Yang e o Yin – a Luz e a Não-Luz).
O Mundo da Não-Manifestação – Wu Chi -, no entanto, não possui qualquer dualidade, apenas a unidade, o absoluto, Paramapurusa, Tao, Deus – o Tao da Criação.

O Mundo da Manifestação existe a partir da mutação. O Mundo da Não-Manifestação é a própria não-mutação, ou seja, a única coisa que nunca entra em mutação é a própria não-mutação que somente existe no Mundo da Não-Manifestação e é exatamente aquilo que Lao Tsé nos diz que não se tem palavras para falar sobre, ou para se definir... É o Tao.

Quando existe a interação entre a Luz e o Vazio, estaremos falando, então, da Criação e da mutação constante existente dentro dessa Criação, em ciclos de nascimento, vida e morte.
Dentro de um ponto de vista do Mundo da Manifestação - aonde vivemos e nos manifestamos em nossa consciência -, poderíamos entender que a Luz nos traz o nascimento, a vida... e o Vazio nos traz a morte, a não-vida. Porém, sabemos que tudo isto apenas é representativo de um ciclo, ou seja, não existem, na verdade, nascimento, vida e morte, nascimento, vida e morte... como palavras terminais – não.

O fio da existência é advindo do Mundo da Manifestação através da Luz e do Vazio, certamente. Porém, a existência é advinda da não-existência - o Mundo da Manifestação é o espelho do Mundo da Não-Manifestação.

E no Mundo da Não-Manifestação, em não havendo lugar para a dualidade – apenas para a Unidade absoluta – então, poderia nos trazer a idéia da Imortalidade, certamente. Dessa maneira, a palavra Imortalidade poderia ser sinônima de Unidade absoluta.

Apenas não podemos nos esquecer que o Tao está ainda além do Tudo, do Todo e do Nada....
É por isso que, durante o processo da prática da meditação, vamos alcançando níveis mais e mais profundos, que nos levam ao encontro da Luz, que nos levam ao encontro do Vazio, que nos levam ao encontro da Imortalidade... E, certamente, estaremos indo ao encontro da Plenitude do Mundo da Manifestação que, num revirão de seu espelho, nos leva ao encontro do Mundo da Não-Manifestação... Ainda assim, o Tao continua além de tudo isso...

Encontrar o Tao significa ser o Tao.

Ainda que alcancemos o Mundo da Não-Manifestação, ainda não estaremos sendo o Tao, e sim estando o Tao.

Para ilustrar de uma forma mais simples aquilo que estou tentando dizer, pensemos assim: a Criação consegue re-criar o trovão e o raio, por exemplo... porém, se assusta quando um relâmpago seguido de um trovão corta os céus anunciando uma tempestade, de repente, não mais que de repente, sem que ninguém pudesse prenunciar este acontecimento....

A Criação cria, sim, porém cria através do Mundo da Manifestação, através dos ciclos de nascimento, vida e morte... A Criação cria, sim, porém cria imitando a própria Criação, tudo aquilo que já é Criação anteriormente.

O Mundo da Não-Manifestação, através do Tao Criador, ou do Tao da Criação, cria, sim, porém toda sua criação advém do Nada... Ao se formar o Todo da Criação, pode ela mesma, a Criação, voltar-se para esse Todo e inferir o Tudo e o Nada e até inferir também que a Criação é quem cria o Criador...
No entanto, tudo a Criação dentro do Mundo da Manifestação pode criar porém nunca, nunca, consegue a Criação da manifestação verdadeiramente criar o Criador... apenas espelhá-lo, simbolizá-lo, imitá-lo em sua própria forjada imagem, imajá-lo...

Novamente retomaremos o Capítulo 7 aonde Lao Tsé nos fala da mortalidade e da imortalidade, da Criação e do Criador:


O céu é constante, a terra é duradoura
O que permite a constância e a duração do céu e da terra
É o não criar para si
Por isso são constantes e duradouros

Através dessas palavras, Lao Tsé nos define uma imensa diferença entre aquilo que a Criação da Manifestação cria e re-cria... e aquilo que o Criador da Não-Manifestação apenas cria e re-cria... e que podem ser minimamente nomeados através da dualidade da Luz e do Vazio.

Dentro do ato da Eterna Mutação do Mundo da Manifestação, existe a constância do céu e existe a duração da terra. E ambos fazem a eterna mutação acontecer através do fato de que ‘não criam para si’. Sendo assim, o Mundo da Não-Manifestação pode ser espelhado pelo Mundo da Manifestação – sendo apenas espelhado, surge Maya..

A questão é: enquanto formos apenas pertencentes a este Mundo da Manifestação, na qualidade de Criação do céu e da terra em suas constância e duração e que não reclamam esta Criação para si mesmos -, tudo aquilo que ‘criarmos ou re-criarmos’ estará contido dentro do eterno retorno, dentro do ciclo de nascimento, vida e morte, dentro do Mundo da Manifestação. E mais, enquanto homens e mentes pensantes e até mesmos infinitamente conscientizadas e iluminadas, nossa criação também fará parte do ter e do não-ter.

Não nos esqueçamos que Lao Tsé nos diz que céu e terra criam, sim, mas não querem esta Criação para si, apenas criam, porque essa é a naturalidade do Tao, apenas ser.

Quando o homem cria e re-cria, essa ‘Criação" lhe pertence, ou seja, pertence ao Mundo da Manifestação – que já é por si mesmo, uma criação, já é criado... Dessa forma, não apenas o homem imita a Criação como também se apega a ela na medida que são todos parte de uma mesma e original Criação... Dessa forma, o homem cria para si – por isso apenas possui a duração. Diferente do céu e da terra que não criam para si – por isso possuem constância e duração.

Assim, a verdadeira Imortalidade – a constância do céu – pode ser alcançada, sim, certamente. No entanto, para tanto, é preciso haver o desapego. Que desapego é esse? O desapego da própria Criação em sua duração.

Dessa forma, Lao Tsé finaliza seu Capítulo 7:
Assim,
O Homem Sagrado deixa seu corpo para trás
e o Corpo avança
Além do corpo, o Corpo permanece
Através do não-corpo, conclui o Corpo


O corpo é a duração da terra. O Corpo é a constância do céu. Dentro do Eterno Retorno, da Eterna Mutação, a alquimia do corpo para o Corpo é a alquimia entre o Mundo da Manifestação retornando ao Mundo da Não-Manifestação.

O corpo é a Criação. O Corpo é o Criador. O desapego ao corpo ‘deixar o corpo para trás’ é que possibilita ‘o corpo avançar’.

Explicando melhor: durante a prática contínua e longa da meditação, não apenas a meta deve ser a iluminação da consciência em sua infinitude, não. A iluminação da consciência em sua infinitude não é ainda suficiente para fazer com que a Criação possa ter constância e duração – e sim apenas duração, mesmo que iluminada infinitamente. Trocando em miúdos: a consciência passa a ser infinita e iluminada porém ainda contida pelo corpo físico que possui sua duração, apenas. Ou seja, ainda permanece dentro do ciclo de nascimento, vida e morte, a conhecida Roda da Vida, a Samsara.

Nesse caso, existe a possibilidade de o homem criar a Criação, sim, porém por esta ainda estar contida pelo corpo de duração, essa Criação precisa ser imajada, contida, simbolizada, pelo Mundo da Manifestação. Mesmo que possua sua consciência infinita e iluminada, o homem cria para si, ainda para si – pois que está sua mente contida dentro de seu corpo.

No momento em que o homem compreende que ainda cria para si e percebe que não deveria mais criar para si – e dessa forma alcançar a constância do céu – ele torna-se Homem Sagrado, ou seja, co-Criador de sua própria Criação, já a caminho do total desapego de seu corpo, já em busca de seu Corpo. É o Dagdhabiija, ou Semente Queimada, aquele que não mais cria para si sua própria criação, seu corpo dentro do Mundo da Manifestação.

O não criar para si seu próprio corpo dentro do Mundo da Manifestação significa realizar a Alquimia do Caldeirão. O Caldeirão é o próprio corpo, a criação dentro do Mundo da Manifestação em sua Eterna Mutação. Sendo conscientizada a realidade da mutação como criação, o Homem Sagrado passa a alquimizar seu corpo em Corpo – é o chamado Corpo de Luz. Na verdade, essa Luz é o Vazio, é o não-corpo – da duração à constância.

A iluminação da consciência ainda pressupõe a duração. Apenas adjuntada a iluminação e infinitude da consciência à iluminação e infinitude da vida é que se pode pressupor a constância.
O verdadeiro Homem Sagrado é aquele que alcança a iluminação e infinitude de sua consciência e a iluminação e infinitude de sua vida. Dessa forma, ele será a própria Criação, em sua constância e duração, em seu céu e sua terra, e criará esta Criação não para si... porque já estará entrelaçado ao Tao da Criação.
Isso é a Imortalidade. No não-corpo da Imortalidade, a Criação surge como o Corpo, aquele que não cria para si. E não cria para si porque já está a caminho do Mundo da Não-Manifestação.

O corpo possui a Luz. O não-corpo possui o Vazio. O Corpo possui a Imortalidade. A Imortalidade é a não-mutação. A não-mutação advém do Tao. A única não-mutação é a própria eterna mutação. O Tao é a única não-mutação. A partir do Tao, o Tudo e o Todo e o Nada são mutações.

Assim, podemos dizer que a Luz e o Vazio são a Imortalidade, são o Eterno Retorno.

Lao Tsé, em seu Capítulo 40, nos afirma:
O retorno é o movimento do Caminho (O Tao)
A suavidade é a atuação do Caminho
Os seres sob o céu nascem da existência
E a existência nasce da não-existência

Somente o Tao é absolutamente interiorizado. Essa é a única não-mutação: a perfeita e plena interiorização. Tudo advém do Tao. No entanto, esse Tudo traz consigo mesmo a semente dessa interiorização sim – por fazer parte do contexto da totalidade da interiorização do Tao. Porém, esse Tudo já é plenamente e absolutamente exteriorizado e portanto, está sempre enredado na teia da eterna mutação – mesmo que essa eterna mutação seja minimamente contida na dualidade mínima do Tai Chi: o Yang e o Yin, a Luz e a Não-Luz, a Luz e o Vazio, ou seja, a própria Imortalidade.
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O Texto acima
O Vazio é a Imortalidade?
é de autoria de Janine Milward de Azevedo. Você pode copiar ou reproduzir desde que sempre na íntegra e mencionando sua autoria e créditos. Namaskar.
As interpretações dos Capítulos do Tao Te Ching foram realizadas por Janine Milward de Azevedo e estruturadas no livro
Tao Te Ching, o Livro do Caminho e da Virtude – Lao Tsé – tradução do Chinês para o Português de Wu Jyh Cherng, Editora Ursa Maior, São Paulo
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BABA NAM KEVALAM
A Consciência suprema a tudo permeia
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Janine Milward de Azevedo