O Mapa do Mundo da Não-Manifestação ou Céu Anterior

O texto abaixo é de autoria de Janine Milward de Azevedo e extraído de seu livro O Fio da Meada – direitos reservados 1997-2003 – Você pode copiar ou reproduzir desde que sempre na íntegra e mencionando sua autoria e seus créditos.


O Mapa do Mundo da Não-Manifestação


ou Rio Amarelo do Céu Anterior


Janine Milward de Azevedo


O Mundo da Não-Manifestação ou Céu Anterior é aquele que existe sim, apenas que subjetivamente, invisivelmente, espiritualmente... advindo do Tao. É esse Mundo que dá estruturação ao Mundo da Manifestação ou Céu Posterior, ou seja, o mundo visível, objetivado, materializado.


Muito antigamente, antes do antes, cerca de cinco a seis mil anos atrás, na China, os sábios da antigüidade que olhavam o céu cuidadosamente durante o dia e durante a noite, perceberam a imagem do Oito do Sol.... E a transpuseram, assim como sempre o homem fez com a sincronicidade e os arquétipos e símbolos, para imajar as orientações básicas e primordiais entre o céu e a terra. Era o Rio Amarelo e tudo aquilo que a partir dele pudesse ser apreendido, compreendido. Chamava-se Rio por causa de sua forma sinuosa e Amarelo por ser a cor que vemos o Sol!


Vamos desenhar então o número 8, assim, bem grande.


8


Inicialmente, podemos perceber que a figura do 8 não tem começo nem fim.... Isso é o que podemos nomear de Eterno Retorno, de Revirão do Universo, de Oito Interior e Oito Exterior... de Rio Amarelo.... Durante milênios, sábios, pesquisadores, poetas, filósofos, psicanalistas, cientistas, pensadores, artistas, religiosos, espiritualistas, todos, todos, vêm discursando profundamente sobre a figura do 8 que simboliza a Eternidade, a Infinitude..... bem como a própria forma do universo, semelhante a uma pêra, a um oito....


Os antigos sábios chineses capturaram a mensagem arquetípica do Eterno Retorno e do Revirão do Universo, quando representaram o 8 como a imagem do enlace eterno do Mundo da Não-Manifestação, chamado de Wu Chi e do Mundo da Manifestação, chamado de Tai Chi. Na verdade, os números formam a estrutura fundamental do universo.


Voltando ao nosso desenho, fecharemos nosso Oito do Universo já dualizado entre a Luz e a Não-Luz, entre o Criativo e o Vazio, entre o Yang e o Yin..... Encontraremos a Mandala do Tai Chi


A imagem do Oito do Sol transformou-se na imagem do Revirão do Universo, o símbolo do Tai Chi, a representação do Mundo da Manifestação através do enlace eterno entre a Luz e a Não-Luz, entre o Yang Supremo e o Yin Supremo Manifestados.


Sempre que o Yang chega á sua potência máxima, dá lugar ao Yin. E vice-versa.




Isso acontece com o próprio Oito do Sol: quando o sol chega ao limite do seu andamento, no solstício, ele faz o seu retorno, ele retorna para realizar seu trajeto em direção ao limite oposto! Desde sempre, em nosso sistema solar, o sol pode ser visto da Terra percorrendo o caminho entre o inverno e o verão, verão e inverno, inverno e verão, verão e inverno ................................................................................................................................................................................................................................





"O retorno é o movimento do Caminho" (1)




O inverno é um tempo de Vazio, de dormência, de Não-Luz, de frio, de maior escuridão: a noite é mais longa que o dia, em muitos lugares a neve cai e o sol desaparece durante semanas e semanas.... Assim, podemos pensar que quando o sol atinge o limite máximo de seu caminho, no solstício de inverno, é o momento da supremacia do Yin, do Sublime Yin, que é simbolizado como a Mãe, como o Receptivo, como a Não-Luz, como o ventre, como a Terra.


O verão, por outro lado, é um tempo de Criação, de vida, de Luz, de calor, de menor escuridão: o dia é mais longo do que a noite, o sol permanece no céu durante semanas e semanas. Assim, podemos pensar que quando o sol atinge o limite máximo de seu caminho, no solstício de verão, é o momento da supremacia do Yang, do Sublime Yang, que é simbolizado como o Pai, como o Criativo, como a Luz, como o Céu.


O Caminho do Céu e da Terra está simbolizado, então, no oito do Revirão do Sol. De um lado, o lado do verão, temos Ch´íen, o Céu, o Criativo, o Yang Supremo e Sublime, o Pai, A Luz... De outro lado, o lado do inverno, temos K´un, A Terra, o Receptivo, O Yin Supremo e Sublime, A Não-Luz, o Vazio, o Abranger, A Mãe.


O traçado do Oito do Sol nos leva à indução, à intuição e apreensão do arquétipo do Eterno Retorno, do Revirão do Universo, do eterno enlace entre o Mundo da Não-Manifestação e o Mundo da Manifestação – O Rio Amarelo -, bem como, bastante concretamente, nos apresenta as chamadas Estações principais do ano do Planeta Terra, ou seja, o inverno e o verão.....


Nosso Planeta Terra é inclinado em 23 graus sim, mas gira em torno de si mesmo, em torno de seu próprio eixo, apontando sempre para a imantação daquilo que chamamos de direção Norte.... assim como a bússola sempre aponta para o norte, tendo o sul como seu lado oposto...


Os sábios chineses da antigüidade, então, trouxeram o Céu, O Espírito, Ch´ien, A Luz, O Criativo, O Tao, o Caminho, para ocupar o lugar do Norte e A Terra, A Matéria, K´un, A Não-Luz, O Vazio, O Receptivo, o Te, A Virtude, para ocupar o lugar do Sul.


E o Leste, o nascer do sol, e o oeste, o por do sol?


O sol, A Luz, pressupõe o dia, o consciente... A lua, A Não-Luz, pressupõe a noite, o inconsciente... Então Sol e Lua tomam seus lugares no leste e no oeste, respectivamente, fazendo acontecer, dessa maneira, os quatro pontos cardeais da Terra nascerem do céu!


O momento de percepção da natureza como um todo em sua relação Céu e Terra é o momento em que faz nascer a Mente Planetária, o Homem. Nesse momento, Céu e Terra são emprenhados por esse Homem, dando vida, então, aos seus chamados Filhos do Meio. Esses Filhos do Meio são representativos e imajam os filhos diretos do Céu e da Terra, ou seja, nosso Sol e nossa Lua:


O Fogo, Li, O Sol, é considerada a filha do meio pois, sendo filha direta de seu pai, Ch’ien, O Céu, recebe de sua mãe, K’un, A Terra, a linha Yin no centro, o lugar do Homem


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A Água, Kan, A Lua, é considerado o filho do meio pois, sendo filho direto de sua mãe, K’un, A Terra, recebe de seu pai, Ch’ien, O Céu, a linha Yang no centro, o lugar do Homem


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A partir de então, com o surgimento dos Filhos do Meio, também surgiu a introdução dos outros dois pontos cardeais essenciais, ou seja, o leste, com a primavera e oeste com o outono: .Li, o Fogo, O Sol, O Aderir, O Espírito, tomou seu lugar no leste e K´an , A Água, A Lua, O Abismal, A Alma, tomou seu lugar no oeste.


Assim, primordialmente essa formação era compreendida como o Mapa do Mundo da Não-Manifestação ou Mapa do Rio Amarelo do Céu Anterior, trazendo consigo, através do trajeto aparente do Sol – o Rio Amarelo - os arquétipos primordiais do Grande Pai Cósmico, da Grande Mãe Cósmica, do Pai Sol e da Mãe Lua!


Estando bem estruturados os quatro pontos cardeais da Terra, os sábios chineses da antigüidade passaram a perceber, a intuir, os arquétipos que formariam os semi-pontos, ou seja, os pontos de referência entre os quatro fundamentais.


Nesse momento, o caos dá lugar à forma concretizada, ou seja: o Mundo da Não-Manifestação estrutura o Mundo da Manifestação. É então criada o restante da Família do Céu e da Terra, trazendo à luz os Filhos Mais Velhos e os Filhos Mais Jovens.


Os Filhos Mais Velhos são aqueles que recebem a doação tanto da linha vazada, Yin, quanto da linha contínua, Yang, para o lugar da Terra dentro dos Trigramas do Céu e da Terra:


Chen, O Trovão, O Incitar, O Despertar, O Retorno da Luz, O Irromper .é considerado o filho mais velho, pois, sendo filho direto de K´un, O Terra, O Receptivo, recebe o Yang de seu pai, Ch’ien, O Criativo, trazendo-lhe a energia do Retorno da Luz. em sua primeira linha (a linha da Terra),


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Sun, O Vento, A Suavidade, A Madeira. é considerada a filha mais velha, pois sendo filha direta de seu pai Ch’ien, O Céu, recebe a linha Yin de sua mãe, K’un, A Terra, trazendo-lhe o Retorno da Não-Luz em sua primeira linha ( a linha da Terra)


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Os Filhos Mais Jovens são aqueles que recebem a doação tanto da linha vazada, Yin, quanto da linha contínua, Yang, para o lugar do Céu dentro dos Trigramas do Céu e da Terra:


Ken, A Montanha, A Quietude, O Mestre. é considerado o filho mais jovem, pois, sendo filho direto de sua mãe, K´un, A Terra, O Receptivo, recebe o Yang do Criativo, trazendo-lhe a confiança da permanência na terra. em sua terceira linha (a linha do Céu)


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Tui, O Lago, A Alegria. é considerada a filha mais jovem, pois sendo filha direta de Ch'ien, O Céu, recebe, o Yin do Receptivo, trazendo-lhe a receptividade do céu na terra. em sua terceira linha (a linha do Céu)


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O Mapa do Mundo da Manifestação


ou Céu Posterior


Janine Milward de Azevedo


Estando criada a Família do Céu – através da alquimia plena entre as linhas contínuas e vazadas, Yang e Yin – forma-se então o Mapa do Mundo da Manifestação, o Rio Amarelo do Céu Posterior, o traçado do Sol contendo todos os chamados Trigramas do I Ching, o Tratado das Mutações.




Porém, exatamente por tudo já estar manifestado, ou seja, todos os arquétipos já terem sido estruturados e simbolizados devidamente, Ch´ien, O Céu, O Pai, O Criativo, bem como K´un, A Terra, A Mãe, O Receptivo, ambos, deixam seus lugares primordiais de sul e norte – que serão ocupados respectivamente por Li, O Fogo, O Espírito, e por K´an, A Água, A Alma – e se colocam ao lado do oeste (por já terem realizado seus papéis de criadores e assim estarem prontos a se retirar de cena), mais precisamente no noroeste e no sudoeste, respectivamente.


"Concluir o corpo, terminar a obra, retirar o corpo,


eis o Caminho do Céu" (2)


Chen, o Trovão, O Despertar, O Irromper, é aquele que por suas próprias características do Retorno da Luz, toma seu lugar no leste.


"O Retorno é o movimento do Caminho" (1)


Tui, O Lago, A Alegria, O Espelho do Céu, é aquela que, ao refletir o céu em suas águas descansadas sobre a terra, com alegria, prepara a natureza para o seu retiro, para seu repouso, tomando seu lugar no oeste.


"Na antigüidade, os bons realizadores do Caminho


não o utilizavam para esclarecer o povo


Utilizavam-no para alegrá-lo" (3 )


Sun, o Vento, A Suavidade, A Madeira, é aquela que harmoniza as relações da natureza, fazendo com que o despertar do dia atinja seu zênite, sua culminância. Sendo assim, toma seu lugar no sudeste.


"A suavidade é a atuação do Caminho" ( 2)


Ken, A Montanha, o Silêncio, O Mestre, escolhe o momento do antes do amanhecer – a boa hora para a meditação, a hora do canto do galo que anuncia o sol que vai nascer em breve.... e toma seu lugar no nordeste


"Assim, ao alcançar a plenitude


encontra-se o retorno" (4) .


O Mapa do Mundo da Manifestação toma como representação sempre o oeste, o lugar do por do sol, para o hemisfério norte.... Para o hemisfério sul esse mesmo mapa toma como representação o leste, o lugar do nascer do sol..... Isso faz parte do conceito dos opostos, do Yang e do Yin, do Eterno Retorno.


Céu e Terra recolhem-se, retiram-se – porque tudo já estava criado.... e se colocam ao lado do oeste, de Tui, O Lago, A Alegria. O oeste é o lugar da Retirada, é onde o sol se esconde quando o dia termina. Ambos optam por doar a seus filhos Sol e Lua, Li e K´an, Espírito e Alma, os pontos cardinais norteadores: o sul e o norte.... Certamente nosso Planeta Terra é extremamente privilegiado por trazer para si tão importantes arquétipos, O Pai e A Mãe, como sua estrutura fundamental da natureza e dos seres.....


K’un, A Terra ainda ocupa um lugar de culminância, seja referente à luz do dia, seja referente à temporada anual (vindo logo após o verão, com a colheita dos frutos maduros)..... Ch’ien, O Céu ocupa um lugar já de sombra, após o cair da noite, quando a natureza adormece, antes do tempo do inverno, no andamento do outono, quando todas as folhas e flores caem, buscando o silêncio da escuridão e do inverno....


Assim, Céu e Terra, trazem o Mundo da Não-Manifestação para o Mundo da Manifestação, do caos à ordem.... e depois se retiram. Assim são o Tao, o Caminho e o Te, A Virtude:


"O céu é constante, a terra é duradoura


o que permite a constância e a duração do céu e da terra


é o não criar para si


por isso são constantes e duradouros" (5 )


"Assim, o Caminho gera, a Virtude cria


fazem crescer, fazem nutrir


fazem completar, fazem concluir


fazem o sustento, fazem a cobertura" (6 )


‘O que gera e cria


gera mas sem se apossar


age mas sem querer para si


cultiva mas sem dominar


Chama-se Misteriosa Virtude" ( 7 )


Tudo o que Ch’ien e K’un, O Céu e a Terra, realizam é fruto da não-intenção, da não-ação... A "Misteriosa Virtude" é a verdade oculta, é a humildade.


Para o Tao e para o Te, a qualidade mais importante é a humildade... O bambú é o símbolo da humildade porque ele sempre se curva – embora dificilmente se quebre.


"Antigamente, se dizia: "Curvar-se permite a plenitude"


Como poderiam ser palavras vazias?


Assim, ao alcançar a plenitude, encontra-se o retorno" (4)


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Tao Te Ching, O Livro do Caminho e da Virtude - Lao Tsé




Capítulo 40




Capítulo 9




Capítulo 65




Capítulo 22




Capítulo 7




Capítulo 51




Capítulo 10


Tradução de Wu Jyh Cherng - Editora Ursa Maior


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O texto acima é de autoria de Janine Milward de Azevedo e extraído de seu livro O Fio da Meada – direitos reservados 1997-2003 – Você pode copiar ou reproduzir desde que sempre na íntegra e mencionando sua autoria e seus créditos.


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Janine Milward de Azevedo


(32) 9963-0439